Zebras não têm úlceras

O homem é o único animal capaz de manter o seu pensamento em temas do passado ou situações futuras por toda sua existência.

Estamos programados assim e é natural nos estressarmos diante das preocupações. O que não é natural para a raça humana é a sensação de ameaça constante, criada por esse fenômeno de antecipação (quando nos preocupamos com coisas que ainda nem aconteceram e talvez nem aconteçam) porque o nosso organismo não está adaptado para isso. O corpo humano não aguenta adrenalina e cortisol 24 horas por dia.

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“Faça uma breve lista das coisas que lhe tiram o sono. Certamente o trânsito, os prazos, as relações familiares, o orçamento, e por aí vai, serão citados. Mas, e se eu disser ‘você está pensando como um ser humano. Pense como uma zebra por um instante.’ De repente, sua lista mudará para: ataques de predadores, danos físicos, dor, fome.”

Pense como uma zebra.

É assim que o neurobiologista e primatologista da Universidade de Standford, Robert M. Sapolsky, explica como o estresse prolongado causa ou intensifica os problemas físicos e emocionais dos seres humanos, incluindo doenças como depressão, úlceras, ataque cardíaco, entre outras. Quando nos preocupamos ou experimentamos situações de estresse, nosso corpo ativa as mesmas respostas fisiológicas que o corpo de qualquer outro animal, mas nós não desligamos nosso mecanismo de resposta da mesma forma. E isso pode nos deixar literalmente doentes. Muito doentes.

Em outras palavras, as zebras não têm úlceras porque desligam na hora certa, ou seja, não ficam pensando no assunto ou na dor por semanas a fio.

Pensar como uma zebra é encontrar caminhos para simplificar a vida. Portanto, se você quer viver bem comece a cuidar de sua mente e a gerenciar seu estresse.

Mas, como gerenciar o estresse em tempos modernos?

anger management
Imagem: Divulgação

“Temperamento é uma coisa muito dificil de se livrar.” – Dr. Buddy Rydell, no filme Tratamento de Choque.

Como indivíduos, cada um de nós tem um temperamento com o qual respondemos aos estímulos externos para viver harmoniosamente em sociedade. Quem é que não se lembra do tratamento de choque recebido por David, personagem de Adam Sandler, pelo Dr. Buddy, interpretado por Jack Nicholson, no filme de mesmo nome.

Na comédia, o terapêuta, com seus métodos pouco ortodoxos, nada mais faz do que ajudar David a encontrar seu ponto de equilíbrio, fundamental para o gerenciamento do estresse.

Ele quase enlouquece a personagem de Adam Sandler com suas próprias manias, deixando para o expectador sentimentos antagônicos de frustração e satisfação. Convenhamos, um ataque de fúria até que seria perfeito para aquela situação complicada no trabalho. Não? Tudo bem, pode ser no trânsito, na escola, na fila do supermercado.

Qualquer que seja a situação, a depender da importância que ela tem em sua vida, ela acaba por definir quem você é.

Nada raro ouvir um nome precedido de um cargo. “Fulano de tal, presidente da Melhor Empresa do Mundo.” Pobre fulano de tal, deixou de ser alguém para ser objeto pertencente à uma empresa, na cabeça de quem fala, maravilhosa.

Quer coisa mais estressante para a mente do que gerenciar esse status?

“Não quero que diga o que você faz. Quero que diga quem você é.”

Mais uma fala do Dr. Buddy Rydell. Tão simples e tão intrigante.

Você! Quem você é?

Não está na hora de se perceber?

Então, voltaremos aos conceitos explorados com bom humor, realidade e nada de auto-ajuda no aclamado guia Por que as zebras não têm úlceras de Sapolsky, um dos mais sérios estudos científicos sobre a qualidade de vida do homem.

Primeiro vamos entender resumidamente que a cabeça comanda o corpo. Ela envia mensagens através dos nervos que se ramificam desde o cérebro passando por toda coluna vertebral até as extremidades, controlando desde os movimentos voluntários, como quando acenamos um adeus até os involuntários, como quando coramos por timidez.

Pronto, sabemos que o nosso cérebro é o ponto central para a saúde do nosso corpo.

Hora de reavaliar nossas atividades cerebrais e aprender a agir para evitar que nossos mecanismos de defesa nos tornem vítimas da somatização.

Um exercício muito denso, íntimo e antigo. O exercício do autoconhecimento, a base da filosofia de Sócrates – 399 a.C. : “conheça-te a ti mesmo”.

O que Sócrates pregava era que nós devemos nos ocupar menos com as coisas (riqueza, fama, status) e passarmos a nos ocupar com nós mesmos.

Conhecendo a mim mesmo, passo a saber como modificar minha relação para comigo, com os outros e com o mundo. Conhecendo a mim mesmo, passo a gerenciar as tensões constantes que dão origem ao meu estresse.

É preciso conhecer-se. Sem o alicerce do autoconhecimento, de nada adianta o alerta de amigos, familiares e até mesmo do seu médico. Você precisa estar realmente comprometido com o seu eu interior.

Somente assim achará meios de drenar as suas preocupações, viver em harmonia com as pessoas ao seu redor e ter saúde, física e mental.

Cuidar de si mesmo é a tarefa mais árdua do ser humano. E ela não pode ser postergada para os finais de semana. Reserve um tempo para você mesmo todos os dias. Fazendo isso, verá que a mudança virá naturalmente, tanto para você como para todos ao seu redor.

Pense, se você estiver bem todo o mundo estará também. Essa frase nunca foi tão verdadeira.

stress management
Imagem: Divulgação

Desconheço a existência de uma receita mágica para o gerenciamento do estresse. Isso porque cada pessoa é única. A realidade, entretanto, é uma só: se preza por sua longevidade e por sua saúde, cuide-se. E comece por não se estressar com essa demanda. Você não quer sofrer de um mal crônico, quer?

Calma. Respira. Goosfraba…

Existe luz no fim do túnel e alguns caminhos podem ser seguidos.

Os seis passos seguintes são um resumo extraído e adaptado do guia das zebras, que não é para zebras (você já entendeu a brincadeira). Algumas dessas ideias fazem parte da oração da serenidade, do teólogo Reinhold Niebuhr, no final desse texto:

1- Em face de uma terrível notícia fora de controle, aquele que age com a razão tende a se sair melhor. Esteja positivo, mas não negue a possibilidade de que as coisas podem não melhorar. Encontre o seu equilíbrio nessas situações. Torça para o melhor ao mesmo tempo em que parte de você está preparado para o pior.

2- Viva o hoje. O presente é o momento certo. Seria maravilhoso quebrar em pedacinhos o muro de lamentações do passado e preocupações do futuro, entretanto, mais incrível que isso é perceber como pequenas soluções do dia a dia podem calçar nossos pés nos dando o apoio necessário para escalá-lo.

3- Informação precisas e previsíveis são muito úteis. No entanto, essas informações não são úteis se chegam muito cedo ou muito tarde. A quantidade de informação, por sua vez, já é extremamente estressante. Pra quê ficar batendo na mesma tecla?

4- Encontre a vávula de escape para suas frustrações. Seja ela qual for, pratique regularmente. Isso beneficiará os seus relacionamentos. Afinal, não se está fadado a ter úlceras tentando evitá-las.

5- É importante encontrar meios de sociabilização e suporte. Mesmo se você faz o tipo individualista, a maioria de nós só tem a ganhar sentindo-se parte de um grupo ou algo maior do que nós mesmos. É preciso pertencer.

6-  Seja paciente. Levamos uma vida inteira tentando ser bons companheiros para nossos pares. Erramos com frequência sobre o olhar de reprovação do outro. O importante é saber que estamos fazendo o nosso melhor.

oracaodaserenidade

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Não poderia terminar esse texto sem citar a música When you’re smiling na cena do filme em que Dr. Buddy arremessa o prato com ovos que David preparou para seu desjejum. A letra diz: “quando você está sorrindo, o mundo inteiro sorri com você. Quando você está chorando, você traz a chuva… Então, pare de suspirar. Continue sorrindo.”

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