O seu animal de estimação e as vacinas

Os médicos veterinários convencionais deveriam seguir o protocolo de vacinação recomendado pelo Grupo de Diretrizes de Vacinação (VGG), estabelecido pela Associação Veterinária Mundial de Pequenos Animais (WSAVA). Entretanto, parece haver tanta controvérsia entre as orientações fornecidas pela WSAVA e a indústria farmacêutica, que a maioria dos profissionais, no intuito de evitar problemas legais com relação à essa prática, tende seguir apenas as recomendações da indústria farmacêutica.

O texto a seguir foi extraído, traduzido e adaptado do livro “Você pode curar seu animal de estimação”, escrito pela médica veterinária Dra Rohini Sathish e pela nutricionista animal Elizabeth Whiter. (2015, pp. 261-268)

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Imagem: pixabay.com

Animal de estimação precisa ser vacinado?

O termo vacinação é definido como a administração de material antígeno (a vacina propriamente dita) para estimular o sistema imunológico no desenvolvimento de defesa contra um grupo específico ou combinado de patógenos. A primeira vacina conhecida foi desenvolvida em 1796, pelo médico britânico Edward Jenner, e protegia contra a varíola em humanos.

Ao longo dos anos, a eficácia das vacinas foi amplamente estudada e verificada, e a vacinação é hoje considerada a forma mais efetiva de prevenir doenças infecciosas. Assim como os humanos, os animais também sofrem de uma variedade de doenças infecciosas, e os avanços da medicina veterinária mostraram que protegê-los é, da mesma forma, vital. Criar imunidade para certas doenças tornou-se uma prioridade também para os nossos animais de estimação, e é por isso que a vacinação faz parte da prática veterinária atual.

A discussão sobre vacinação

Parece haver muita desinformação entre veterinários e tutores a respeito do assunto. No entanto, antes de definir sobre determinada prática, ainda acho mais importante avaliar aspectos significativos, como o estilo de vida de cada animal.

A história sobre a vacinação animal é um tanto quanto confusa. A falta de transparência – somada aos resultados de pesquisas contraditórias com relação as reações adversas, é desencorajadora. As primeiras vacinas desenvolvidas para a prática veterinária abrangiam apenas quatro doenças fatais. Hoje em dia, essa lista é vasta e a ‘indústria da vacina’ é multimilionária.

Mas, será que nossos bichos precisam de tantas vacinas?

Não há dúvidas de que os fabricantes iniciaram suas atividades por questões honrosas, e ajudaram a salvar muitas vidas, evitando epidemias etc. Entretanto, hoje em dia, existe um mercado interessado em vender vacinas para tratar enfermidades mais brandas, que não necessariamente precisariam de uma vacina para combatê-las.

É preciso atentar que, a partir dos anos 70, as vacinas tornaram-se o ‘carro chefe’ dos serviços oferecidos nas clínicas veterinárias de todo o mundo.

Agora, você já parou para pensar se o seu animal de estimação realmente precisa ser vacinado todos os anos?

De acordo com os próprios veterinários, o protocolo de vacinação foi elaborado para encorajar o tutor a levar seu bichinho para o check-up anual. Se os reforços não fossem necessários, muitos tutores talvez nem voltariam mais, deixando de lado a importância da avaliação geral de saúde.

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Imagem: pixabay.com

Mas, e o tutor responsável, que leva o seu bichinho religiosamente às consultas anuais? Até mesmo para ele é preciso insistir no reforço da vacina?

Reforços: essenciais ou nocivos?

Os médicos veterinários convencionais deveriam seguir o protocolo de vacinação recomendado pelo Grupo de Diretrizes de Vacinação – Vaccination Guidelines Group (VGG), estabelecido pela Associação Veterinária Mundial de Pequenos Animais –World Small Animal Veterinary Association (WSAVA). Entretanto, parece haver tanta controvérsia entre as orientações fornecidas pela WSAVA e a indústria farmacêutica, que a maioria dos profissionais, no intuito de evitar problemas legais com relação à essa prática, tende seguir apenas as recomendações da indústria farmacêutica.

Por outro lado, o tutor responsável está cada vez mais preocupado com os efeitos adversos, custos, e mais importante, com a real necessidade dos reforços.

Quais são, de fato, as reações adversas às vacinas? Seriam elas exatamente as listadas na especificação do fabricante? Superdosagens fazem mesmo mal à saúde dos animais de companhia? Se sim, temos provas?

Na edição inglesa do mês de junho de 2012 da revista “Dogs Naturally”, foi abordado o assunto e a maioria dos veterinários holísticos entrevistados disseram que as vacinas fazem mais mal do que bem. Alguns ainda alertam que muitas doenças de base imunológica acabam sendo desencadeadas por conta do excesso de vacinas.

Alergias, asma, doenças autoimunes, pancreatite, cardiomiopatia, epilepsia, falência renal, problemas nas glândulas anais, cistite, colite, câncer, especialmente dos linfomas, até mesmo problemas comportamentais, apenas para nomear algumas das doenças, estão todas relacionadas com o uso excessivo de vacinas.

Fibrosarcomas por vacinação em gatos estão vastamente documentados.

Quando o sistema imunológico é comprometido, fica suscetível ao ataque de germes e bactérias. É muito difícil, no entanto, provar que foi a vacina a causa da doença subsequente à esse ataque. A veterinária Dra Jean Dodds, durante anos de sua prática, levantou provas que associam doenças neurológicas (neuropatias), atrofias (deterioração muscular), falta de coordenação e convulsões às vacinas de cinomose, parvovirose e raiva. Ela também estabeleceu uma associação entre a vacinação contra a doença de Lyme, causada pela bactéria Borrelia burgdorferi (transmitida pela picada do carrapato) e a consequente deficiência nos rins e fígado dos cães. Semelhantemente, em gatos, o mesmo parece ocorrer com o uso das vacinas de cinomose (quando em doses combinadas) e o aumento da incidência de hipertireoidismo.

A questão aqui é: essas questões estão sendo levantadas ou levadas à sério?

Estudos conduzidos em ratos de laboratório e em crianças mostram que as vacinações utilizadas desde cedo estimulam a imunidade humoral, ou a formação de anticorpos para combater as doenças, mas, ao mesmo tempo, diminuem a imunidade mediada pelas células, necessárias para combater o câncer, por exemplo. Esse padrão pode continuar por toda a vida adulta do animal, resultando no aumento do risco do desenvolvimento de câncer em idade avançada.

Diretrizes para vacinação

Em 1997, o primeiro simpósio na área veterinária para discussão dos diagnósticos e vacinas reuniu aproximadamente 500 profissionais entre eles veterinários, imunologistas, epidemiologistas e cientistas na Universidade de Wisconsin, USA. Juntos, experts convencionais e alternativos, concordaram unanimemente que os reforços nas vacinas devem ser administrados a cada três anos. Não houve consenso sobre as vacinações administradas anualmente, ao contrário, todos consentiram que anualmente fosse feito apenas o teste para titulação de anticorpos, a fim de se confirmar a imunidade para determinada doença, desta forma, evitando superdosagem futura.

O Grupo de Diretrizes de Vacinação da WSAVA foi convocado em 2006 com intuito de definir uma diretriz internacional sobre a vacinação de cães e gatos com base em diversos fatores que influenciam a guarda desses animais de companhia em diferentes países, incluindo as condições socioeconômicas. Esse documento foi lançado em 2007 e revisado com rigor em 2009 e 2010. Ele foca nos dois maiores conceitos à respeito da vacinação, sendo eles:

  • Reavaliação da prática de vacinação e a importância da imunização dos grupos. O VGG observou que mesmo em países desenvolvidos, apenas 30 a 50% da população animal é vacinada, e esse percentual é ainda menor em relação aos países em desenvolvimento. Na prática médica para animais de pequeno porte, a imunização de grupos é lenta – a vacinação individual é importante, não apenas para proteger o indivíduo, mas também para reduzir o número de animais suscetíveis na população daquela região. A imunização de grupos com as principais vacinas de longa duração (que promovem a imunidade por um longo tempo) é diretamente ligada ao percentual de animais vacinados daquela população e não depende do número de vacinas que é aplicado anualmente. A conclusão, portanto, é que todo esforço deve ser feito para vacinar um bom número percentual de cães e gatos contra as principais doenças.
  • Reduzir a carga de vacina nos indivíduos a fim de minimizar o potencial risco de reações adversas às substâncias que compõem as vacinas. Por esta razão, o VGG preparou as diretrizes de vacinação de acordo com uma análise prática e racional direcionada para cada animal e região, onde propõe vacinas compulsórias (obrigatórias) e opcionais (não-obrigatórias). 

Doenças controladas por vacinas

De um modo geral (por favor, considere o risco para determinadas patologias em sua região), as principais vacinas são:

Cães

Cinomose, hepatite canina infecciosa, leptospirose, parvovirose, tosse do canil (Bordetella bronchiseptica), parainfluenza viral e raiva. Em alguns países, especialmente na Europa, a vacina contra a raiva é indicada apenas em casos de viagens ao exterior, visto que a doença está erradicada em muitos lugares.

Gatos

Enterite infecciosa, leucemia, clamidiose, gripe felina (herpesvírus e calicivírus) e raiva. Assim como os cães, a vacina contra raiva em gatos é também indicada com moderação em determinados países.

Cavalos

Herpes equina do tipo 1, influenza, tétano, arterite viral. Em laguns caso, raiva.

Coelhos

Mixomatose e doença hemorrágica viral.

A maioria dessas doenças são fatais. E apesar dos cuidados veterinários, causam sofrimento e, muitas vezes, danos irreparáveis.

A imunidade natural pode se desenvolver sem a vacinação. Mas, para que ocorra, primeiro o animal deve ser exposto à doença e então sobreviver à ela. Devido ao potencial risco de morte em doenças dessa natureza, vale a pena correr o risco?

A mensagem mais importante do VGG está, portanto, contida na declaração: ‘Devemos vacinar todo animal contra as principais doenças, e estudar as reais necessidades de cada indivíduo em receber vacinas não-obrigatórias.’

Segundo a diretriz da WSAVA: ‘Vacinas obrigatórias não devem ser aplicadas com frequência maior do que três anos’, ou seja, a cada três anos depois da primeira série de vacinas dos filhotes, ‘porque a imunidade é garantida por muito tempo e pode, até mesmo, durar por toda a vida do animal. Para assegurar a proteção contra determinada doença existe o teste de titulação de anticorpos.’ – Ronald D Schultz, Ph.D., Professor do Depto. de Patologias em Medicina Veterinária da Universidade de Wisconsin e membro do WSAVA.

‘Apenas uma dose das principais vacinas (contra cinomose, parvo e adenovírus em cães, e contra herpes, parvo e corona vírus em gatos), quando administrada com 16 semanas ou mais, é capaz de garantir (desde muitos anos até a vida inteira) de imunidade para um grande percentual de animais’, diz Schultz. (1998, 2000, 2006)

A razão pela qual é necessário vacinar novamente com 16 semanas é simples: os anticorpos maternos ainda estão no sistema circulatório e eles podem fazer com que as vacinas não funcionem. Dessa forma, idealmente, a primeira vacina pode ocorrer com 10 semanas de vida ou mais e a segunda dose um mês após a primeira, na 16ª semana aproximadamente.

Felizmente, mais e mais tutores estão cientes dessas normas e práticas, embora algumas vacinas, como a da leptospirose, ainda seja aplicada cedo demais. Isso porque a doença é uma zoonose (pode afetar humanos) e também por não haver informação suficiente à disposição para responder se existe de fato o risco da doença na região ou se o animal em questão está em risco.

Cães miniatura são mais propensos as reações anafiláticas depois da administração da dose contra a leptospirose. Salvo se ele estiver em áreas de risco, a vacina não é recomendada para esses cães. Já a vacina contra tosse do canil (Bordetella) é totalmente opcional.

No caso dos gatos, a vacina contra leucemia não é obrigatória se o bichano não se encontra em área de risco.

Em resumo

Não há dúvidas de que existem opiniões controversas sobre a vacinação dos animais de companhia. Veterinários e até mesmo o público em geral estão mais conscientes sobre os protocolos de vacinação. Mas, apesar de todo esforço por parte dos profissionais de cuidado e saúde animal, ainda predominam os interesses financeiros da indústria farmacêutica.

Ademais, veterinários não querem deixar de lucrar com a administração de vacinas em doses anuais e estão, também eles, com medo de serem processados se aconselharem contra os princípios dessa mega indústria, que amedronta o seu público com a indicação de reforços anuais. Por fim, tutores são levados a acreditar que é mais barato fazer o reforço anual do que o teste de titulação de anticorpos.

Existe também as regulamentações dos canis, hotéis e companhias aéreas, que obrigam os seus clientes a apresentar a carteira de vacinação “em dia”. Isso sem falar na ansiedade dos tutores em sair com seus cães e gatos, levando-os a vaciná-los antes das 10 semanas de vida.

É necessária uma mudança de paradigma na mentalidade dos tutores e também dos profissionais. O tutor precisa escolher o melhor veterinário para seus bichos. E o melhor nem sempre é aquele que impõe suas práticas, mas sim aquele que explica, ensina e atua em parceria com o dono. Inclusive, orientando sobre a melhor forma de proteger seu animal de estimação contra doenças antes das vacinas.

As diretrizes estabelecidas aqui não são obrigatórias e o seu veterinário não precisa segui-las à risca se não julgar necessário. Elas, as diretrizes, existem para “nos guiar” quanto ao uso responsável e efetivo das vacinas. Veterinários, por sua vez, precisam parar de se render à pressão da indústria farmacêutica e fazer o que é melhor para os animais confiados aos seus cuidados.

As especificações das vacinas são claras quanto à proibição do seu uso em animais comprometidos ou adoecidos. Isso deveria ser o suficiente para renunciar o uso em animais com idade avançada (sete anos ou mais, a depender da raça) e naqueles com problemas crônicos de saúde. O diálogo aberto entre veterinários e tutores é sempre a melhor saída.

Com alguma sorte, o desenvolvimento de testes de titulação a preços mais acessíveis inibirá a vacinação desnecessária por “evidência comprovada” de imunidade.

Opte pelo reforço somente se a dosagem de anticorpos estiver realmente baixa e se o seu animal estiver em risco. Ao invés de ficar calculando quanto você vai gastar em vacinas, o veterinário tem que focar na sua conscientização e assegurar o cuidado do seu animal com check-ups anuais independentes de vacinação.

É papel dos médicos veterinários instruir os tutores a cuidar de seus animais de estimação de forma completa e verdadeira.

 

Referência bibliográfica

Whiter, Elizabeth and Dr Rohini Sathish MRCVS (2015). You can heal your pet. The Practical Guide to Holistic Health and Veterinary Care. London, UK: Hay House UK Ltda.

 

 

 

Zebras não têm úlceras

O homem é o único animal capaz de manter o seu pensamento em temas do passado ou situações futuras por toda sua existência.

Estamos programados assim e é natural nos estressarmos diante das preocupações. O que não é natural para a raça humana é a sensação de ameaça constante, criada por esse fenômeno de antecipação (quando nos preocupamos com coisas que ainda nem aconteceram e talvez nem aconteçam) porque o nosso organismo não está adaptado para isso. O corpo humano não aguenta adrenalina e cortisol 24 horas por dia.

“Faça uma breve lista das coisas que lhe tiram o sono. Certamente o trânsito, os prazos, as relações familiares, o orçamento, e por aí vai, serão citados. Mas, e se eu disser ‘você está pensando como um ser humano. Pense como uma zebra por um instante.’ De repente, sua lista mudará para: ataques de predadores, danos físicos, dor, fome.”

Pense como uma zebra.

É assim que o neurobiologista e primatologista da Universidade de Standford, Robert M. Sapolsky, explica como o estresse prolongado causa ou intensifica os problemas físicos e emocionais dos seres humanos, incluindo doenças como depressão, úlceras, ataque cardíaco, entre outras. Quando nos preocupamos ou experimentamos situações de estresse, nosso corpo ativa as mesmas respostas fisiológicas que o corpo de qualquer outro animal, mas nós não desligamos nosso mecanismo de resposta da mesma forma. E isso pode nos deixar literalmente doentes. Muito doentes.

Em outras palavras, as zebras não têm úlceras porque desligam na hora certa, ou seja, não ficam pensando no assunto ou na dor por semanas a fio.

Pensar como uma zebra é encontrar caminhos para simplificar a vida. Portanto, se você quer viver bem comece a cuidar de sua mente e a gerenciar seu estresse.

Mas, como gerenciar o estresse em tempos modernos?

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Imagem: Divulgação

“Temperamento é uma coisa muito dificil de se livrar.” – Dr. Buddy Rydell, no filme Tratamento de Choque.

Como indivíduos, cada um de nós tem um temperamento com o qual respondemos aos estímulos externos para viver harmoniosamente em sociedade. Quem é que não se lembra do tratamento de choque recebido por David, personagem de Adam Sandler, pelo Dr. Buddy, interpretado por Jack Nicholson, no filme de mesmo nome.

Na comédia, o terapêuta, com seus métodos pouco ortodoxos, nada mais faz do que ajudar David a encontrar seu ponto de equilíbrio, fundamental para o gerenciamento do estresse.

Ele quase enlouquece a personagem de Adam Sandler com suas próprias manias, deixando para o expectador sentimentos antagônicos de frustração e satisfação. Convenhamos, um ataque de fúria até que seria perfeito para aquela situação complicada no trabalho. Não? Tudo bem, pode ser no trânsito, na escola, na fila do supermercado.

Qualquer que seja a situação, a depender da importância que ela tem em sua vida, ela acaba por definir quem você é.

Nada raro ouvir um nome precedido de um cargo. “Fulano de tal, presidente da Melhor Empresa do Mundo.” Pobre fulano de tal, deixou de ser alguém para ser objeto pertencente à uma empresa, na cabeça de quem fala, maravilhosa.

Quer coisa mais estressante para a mente do que gerenciar esse status?

“Não quero que diga o que você faz. Quero que diga quem você é.”

Mais uma fala do Dr. Buddy Rydell. Tão simples e tão intrigante.

Você! Quem você é?

Não está na hora de se perceber?

Então, voltaremos aos conceitos explorados com bom humor, realidade e nada de auto-ajuda no aclamado guia Por que as zebras não têm úlceras de Sapolsky, um dos mais sérios estudos científicos sobre a qualidade de vida do homem.

Primeiro vamos entender resumidamente que a cabeça comanda o corpo. Ela envia mensagens através dos nervos que se ramificam desde o cérebro passando por toda coluna vertebral até as extremidades, controlando desde os movimentos voluntários, como quando acenamos um adeus até os involuntários, como quando coramos por timidez.

Pronto, sabemos que o nosso cérebro é o ponto central para a saúde do nosso corpo.

Hora de reavaliar nossas atividades cerebrais e aprender a agir para evitar que nossos mecanismos de defesa nos tornem vítimas da somatização.

Um exercício muito denso, íntimo e antigo. O exercício do autoconhecimento, a base da filosofia de Sócrates – 399 a.C. : “conheça-te a ti mesmo”.

O que Sócrates pregava era que nós devemos nos ocupar menos com as coisas (riqueza, fama, status) e passarmos a nos ocupar com nós mesmos.

Conhecendo a mim mesmo, passo a saber como modificar minha relação para comigo, com os outros e com o mundo. Conhecendo a mim mesmo, passo a gerenciar as tensões constantes que dão origem ao meu estresse.

É preciso conhecer-se. Sem o alicerce do autoconhecimento, de nada adianta o alerta de amigos, familiares e até mesmo do seu médico. Você precisa estar realmente comprometido com o seu eu interior.

Somente assim achará meios de drenar as suas preocupações, viver em harmonia com as pessoas ao seu redor e ter saúde, física e mental.

Cuidar de si mesmo é a tarefa mais árdua do ser humano. E ela não pode ser postergada para os finais de semana. Reserve um tempo para você mesmo todos os dias. Fazendo isso, verá que a mudança virá naturalmente, tanto para você como para todos ao seu redor.

Pense, se você estiver bem todo o mundo estará também. Essa frase nunca foi tão verdadeira.

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Imagem: Divulgação

Desconheço a existência de uma receita mágica para o gerenciamento do estresse. Isso porque cada pessoa é única. A realidade, entretanto, é uma só: se preza por sua longevidade e por sua saúde, cuide-se. E comece por não se estressar com essa demanda. Você não quer sofrer de um mal crônico, quer?

Calma. Respira. Goosfraba…

Existe luz no fim do túnel e alguns caminhos podem ser seguidos.

Os seis passos seguintes são um resumo extraído e adaptado do guia das zebras, que não é para zebras (você já entendeu a brincadeira). Algumas dessas ideias fazem parte da oração da serenidade, do teólogo Reinhold Niebuhr, no final desse texto:

1- Em face de uma terrível notícia fora de controle, aquele que age com a razão tende a se sair melhor. Esteja positivo, mas não negue a possibilidade de que as coisas podem não melhorar. Encontre o seu equilíbrio nessas situações. Torça para o melhor ao mesmo tempo em que parte de você está preparado para o pior.

2- Viva o hoje. O presente é o momento certo. Seria maravilhoso quebrar em pedacinhos o muro de lamentações do passado e preocupações do futuro, entretanto, mais incrível que isso é perceber como pequenas soluções do dia a dia podem calçar nossos pés nos dando o apoio necessário para escalá-lo.

3- Informação precisas e previsíveis são muito úteis. No entanto, essas informações não são úteis se chegam muito cedo ou muito tarde. A quantidade de informação, por sua vez, já é extremamente estressante. Pra quê ficar batendo na mesma tecla?

4- Encontre a vávula de escape para suas frustrações. Seja ela qual for, pratique regularmente. Isso beneficiará os seus relacionamentos. Afinal, não se está fadado a ter úlceras tentando evitá-las.

5- É importante encontrar meios de sociabilização e suporte. Mesmo se você faz o tipo individualista, a maioria de nós só tem a ganhar sentindo-se parte de um grupo ou algo maior do que nós mesmos. É preciso pertencer.

6-  Seja paciente. Levamos uma vida inteira tentando ser bons companheiros para nossos pares. Erramos com frequência sobre o olhar de reprovação do outro. O importante é saber que estamos fazendo o nosso melhor.

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Não poderia terminar esse texto sem citar a música When you’re smiling na cena do filme em que Dr. Buddy arremessa o prato com ovos que David preparou para seu desjejum. A letra diz: “quando você está sorrindo, o mundo inteiro sorri com você. Quando você está chorando, você traz a chuva… Então, pare de suspirar. Continue sorrindo.”

OBVIOUS

Miscelânea na Obvious Magazine

Obvious

Oba! Agora tenho mais mais um meio para falar com vocês através de meus textos.

O Miscelânea ganhou um espaço na obvious magazine e eu estou muito feliz e grata por isso.

A revista foi criada em 2003 e é uma das maiores referências no Brasil e em Portugal, com uma audiência de milhões de leitores.

O conteúdo online é parte de um grande projeto onde todos os autores são voluntários selecionados pela qualidade de seus textos para escreverem periodicamente.

Aqui escrevo de maneira mais informal. Por lá, o Miscelânea vai ganhar um tom mais indireto.

Um outro olhar com os mesmos óculos.

No texto de estréia eu falo do filme A vida secreta de Walter Mitty (2013), estrelado e dirigido por Ben Stiller.

Surpresos?

Pois é, eu também!

Todo o conteúdo da obvious é uma porta para desvendar novos territórios criativos. Tenho certeza de que vocês vão curtir.

Vão ver que não é só o filme. Tem mais no texto porque a história é demais e a reflexão é ampla.

A minha intenção ao escolher falar sobre esta obra não foi explicar ou explorar aspectos técnicos e sim abrir um campo para as ideias sugeridas pelo próprio tema (Pare de sonhar. Comece a viver). Afinal, (ainda) não sou uma cinéfila declarada.

Encontrei informação de primeiríssima qualidade no texto da Raquel Moritz, do pipoca musical. Para conhecer sobre o trabalho de criação, entrevista com Ben Stiller, bastidores e, aos admiradores de música, toda a trilha sonora, recomendo a leitura clicando aqui.

Com o tempo, vou transitar com o conteúdo de lá pra cá e vice-versa, mas agora quero que ele “esquente” primeiro por lá, por isso deixo o convite e algumas fotos.

As imagens são da Fox Sony Pictures HE Brasil.

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Faça uma marca… E depois veja no que dá!

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A exploração habilidosa da criação artística.

Um tópico tão delicado e tão lindamente trabalhado no texto e nas imagens de Peter H. Reynolds, no best-seller O Ponto (originalmente The Dot).

O livro conta a história da aluna Vera e sua professora durante uma situação em sala de aula, na qual a aluna se vê incapaz de prosseguir com o seu trabalho de artes. A professora, percebendo a resistência de Vera, sugere, então, que ela faça uma marca no papel. E com isso tem início uma linda e encantadora história escrita num pequeno livro que carrega uma grande mensagem para todas as idades.

O que poderia ter sido um sermão se transformou em arte pelo espírito criativo do próprio autor, que numa sacada de mestre, deu ao fato tão cotidiano de acharmos que “não sabemos nada” uma solução que não apenas faz o leitor refletir como lhe dá a certeza de que pode fazer algo, nem que seja uma marca, porque ele “sabe sim”!

O Ponto completou 10 anos em 2013, ganhou inúmeros prêmios de literatura e artes, encabeça a lista dos livros mais vendidos de acordo com o rank literário mais concorrido do mundo, o jornal The New York Times, e por aí vai, mas o que mais chama a atenção é o fato de a história, a cada ano, ganhar mais força e repercussão dentro das escolas e demais instituições de ensino na América do Norte e Europa.

O Dia Internacional do Ponto foi inspirado nele e é comemorado em 15 de setembro. Neste dia, a proposta não poderia ser mais simples: “faça a sua marca”.

Apaixonada declarada pela área da educação, o pedido foi levado à risca quando percebi que poderia incluir o Brasil nesse projeto. Traduzi todo o material do manual do educador, e com a autorização do próprio Peter, o estou disponibilizando aqui na íntegra para que ele inspire as atividades daqueles que se dedicam às crianças, às artes e à educação.

No manual tem uma porção de links interessantes sobre trabalhos realizados ao redor do mundo em diversas áreas do conhecimento.

Tudo muito singelo, porque o livro assim o é.

Explorem o material, mandem perguntas, confiem nos seus talentos escondidos e o mais importante: deixem suas marcas.

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Dia Internacional do Ponto_ Manual do Educador

Um pouco mais ao Norte

Desde que chegamos nenhum dia se repetiu. Cada um deles tem sido único e cada qual tem nos representado um passo a frente neste longo aprendizado.

Eu nasci assim

Eu cresci assim

Eu sou mesmo assim

Vou ser sempre assim…

(Dorival Caymmi – Modinha de Gabriela)

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Ganhei o livro “Anarquistas, graças a Deus” de Zélia Gattai, no dia de meu aniversário, presente de meu marido em consideração às origens de minha família, imigrantes italianos, gente brava e guerreira, gente que ama a vida e a liberdade, gente que hoje me inspira e me faz sentir viva enquanto imigrante em terras um pouco mais ao norte.

Ah! Sim, sou brasileira! Nasci no Brasil, meus pais nasceram no Brasil, meus avós também. A história da imigração de minha família começou com os avós de meus pais, e sempre tocou o meu coração.

Hoje eu estou vivendo o que viveram meus bisavôs quando chegaram ao Brasil. Bom, quero dizer, estou vivendo a imigração, pois é óbvio que não saí de um país em guerra, tampouco saí sem uma soma para o sustento de minha família. Mas, a condição de imigrante, aproxima-me dos meus antepassados e é bom ter a companhia desta leitura neste momento.

Pouco ou quase nada dividi desta experiência aqui nessas páginas. Talvez porque tudo seja fruto de um presente ainda muito recente, talvez porque eu tenha a mania de querer fazer as coisas por conta própria e, desta forma, evitar comentários e opiniões. (Eu detesto opiniões, elas me irritam profundamente.) Ou talvez, simplesmente, por querer um tempo para me adaptar, para respirar, para amadurecer as ideias antes de colocá-las no papel.

Seja como for, há tanto em meu peito. Nenhuma dor ou arrependimento, apenas memórias que se reúnem e que vão ganhando novas páginas em minha vida, coisas que eu gostaria de dividir, de contar.

Desde que chegamos nenhum dia se repetiu. Cada um deles tem sido único e cada qual tem nos representado um passo a frente neste longo aprendizado.

Quanto à saudade, não estamos tendo tempo para ela e isso não se dá porque “temos a Internet”. Esse papo é furado. Ela (a saudade) simplesmente não está na nossa lista de prioridades.

As redes sociais e os bate-papos, em determinados momentos, também irritam. Não tem coisa pior do que você ter a oportunidade de falar com alguém distante e esse alguém “usar desse tempo” para expor sua idiotice. Perguntas sobre a fluência no idioma local, sobre trabalho ou escola, cansam. Acabamos de chegar! É óbvio que eu e a minha filha ainda não estamos fluentes, e é claro que não estou trabalhando!

O idioma é apenas um dos aspectos da mudança e da mesma forma que vamos ganhar espontaneidade numa nova língua, podemos perdê-la na nossa própria. A língua ganha variações, adaptações, neologismos todos os dias e com o passar do tempo, ela e tantas outras coisas estarão diferentes. Temos muita consciência disso.

Dona Angelina, mãe de Zélia, imigrou da Itália e viveu no Brasil quase sem saber expressar-se corretamente em português.

Nem por isso deixou de ter uma vida digna e feliz.

Uma vida digna e feliz. É isso o que nos importa agora, capisce?

Pré embarque

Vou, “porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida”.

Estou de partida.
Ando sumida porque me ocupa os preparativos desta longa viagem.
É muito duro esse momento da despedida. Mesmo quando você sabe que pode voltar, não é a partida em si, é a distância e o tempo juntos que pesam, pois se já fazem o peito encolher, farão doer a saudade .
Vou, porque sinto que é preciso sair de cena por aqui. Para os demais porquês não tenho resposta.
Peço desculpas.
Todos os dias alguém me pergunta: Voltas? Já conhece o lugar onde vai morar?
Se ainda procuro conhecer-me a mim, como posso eu conhecer lugares?
Partir, neste momento, significa ir de encontro com o desconhecido. Aproveitar a oportunidade para experimentar algo novo e me achar um pouco ali.
Um pouco… Porque é sempre um pouco para tanto o quanto o mundo e a vida podem oferecer e neste caminho, amigos, creio, não há voltas.
O que é voltar?
Me perdoem as poucas respostas, se eu as tivesse todas, talvez não aceitasse partir. Vou, “porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida”.

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O conto da ilha desconhecida

José Saramago

Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.

Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em consideração que, de acordo com a pragmática das portas, ali só se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse alguém à espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as suas ambições. À primeira vista, quem ficava a ganhar com este artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lamúrias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obséquios. À segunda vista, porém, o rei perdia, e muito, porque os protestos públicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequências no afluxo de obséquios. No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei, ao cabo de três dias, e em real pessoa, à porta das petições, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei à mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade não gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, além de ser indigno da sua majestade, falar com um súdito através de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao colóquio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por aí sabe Deus o quê, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando começou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e pôs-se à espera. Estes sinais de que finalmente alguém vinha atender, e que portanto a praça não tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes à liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tal coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos ditos candidatos mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomara às janelas das casas, no outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previsão, que o rei, mesmo que demorasse três dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com notável atrevimento, o mandara chamar. Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns, trabalhos menores de costura no palácio como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do público não deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, aliás o movimento dos lábios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais à doca, perguntas lá pelo capitão do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, levas o meu cartão. O homem que ia receber um barco leu o cartão de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, não quero ter remorsos na consciência se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.

Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, Vou dar-te a embarcação que te convém, Qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capitão apontava, saiu a correr de detrás dos bidões e gritou, É o meu barco, é o meu barco, há que perdoar-lhe a insólita reivindicação de propriedade, a todos os títulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, Mais ou menos, concordou o capitão, no princípio era uma caravela, depois passou por arranjos e adaptações que a modificaram um bocado, Mas continua a ser uma caravela, Sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, é o mais recomendável. A mulher da limpeza não se conteve, Para mim não quero outro, Quem és tu, perguntou o homem, Não te lembras de mim, Não tenho idéia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do palácio do rei, A que abria a porta das petições, Não havia outra, E por que não estás tu no palácio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria já foram abertas e porque de hoje em diante só limparei barcos, Então estás decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Saí do palácio pela porta das decisões, Sendo assim, vai para a caravela, vê como está aquilo, depois do tempo que passou deve precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que não são de fiar, Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capitão do porto interrompeu a conversa, Tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me dá, Os barcos têm chave, perguntou o homem, Para entrar, não, mas lá estão as arrecadações e os paióis, e a escrivaninha do comandante com o diário de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripulação, disse o homem, e afastou-se.

A mulher da limpeza foi ao escritório do capitão para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram aí, a vassoura do palácio e a prevenção contra as gaivotas, ainda não tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e já as malvadas estavam a precipitar-se sobre ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. Não sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento. As velas são os músculos do barco, basta ver como incham quando se esforçam, mas, e isso mesmo sucede aos músculos, se não se lhes dá uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervo, E as costuras são como os nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender tão depressa a arte de marinharia. Achou esgarçadas algumas bainhas, mas contentou-se com assinalá-las, uma vez que para este trabalho não podiam servir a linha e a agulha com que passajava as peúgas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros paióis, viu logo que estavam vazios. Que o da pólvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, não lhe importou nada, de facto não está escrito em nenhuma lei, pelo menos até onde a sabedoria duma mulher da limpeza é capaz de alcançar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser forçosamente uma empresa de guerra. Já a ralou, e muito, a falta absoluta de munições de boca no paiol respectivo, não por si própria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do palácio, mas por causa do homem a quem deram este barco, não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher, E se já traz marinheiros para a tripulação, que são uns ogres a comer, então é que não sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza.

Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.

Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero, Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela. A mulher, essa, não pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles três dias, quando entreabria de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava lá fora, à espera. Não sobrou migalha de pão ou de queijo, nem gota de vinho, os caroços das azeitonas foram atirados para a água, o chão está tão limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o último esfregão. A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviatã, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a água ondulou um pouco à passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloiçaremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, Não é que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, Há beliches lá em baixo, o homem disse, Sim, e foi então que se levantaram, que desceram à coberta, aí a mulher disse, Até amanhã, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, até amanhã, não disseram bombordo nem estibordo, decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher voltou atrás, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando está a sós com uma mulher. Perguntava-se se já dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava à procura dela e não a encontrava em nenhum sítio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa ás pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra, a mulher dorme a poucos metros e ele não soube como alcançá-la, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo.

Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez. O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.

Texto do livro “O Conto da Ilha Desconhecida”, de José Saramago, Companhia das Letras – São Paulo, 1998, com aquarelas de Arthur Luiz Piza.

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Língua Pátria

Para os atentos à nossa gramática. Eu poderia dizer “conhecer a mim” ou “conhecer-me” apenas. O uso de “conhecer-me a mim” constitui um pleonasmo sintático, que é uma figura de linguagem usada para criar efeito de realce.

Controlando as emoções

Outro dia um amigo escritor falava sobre a habilidade de escrever sem se colocar em seus textos. Isso porque, segundo ele, o escritor, é claro, escreve com base nos conhecimentos que possui e obviamente as personagens ganham suas características. Mas, é preciso lembrar que as respostas destas, na grande maioria das vezes, é a idealizada por ele, o que torna o texto uma ficção.

Ah! Sim, eu não sou escritora. Acho que não. Sou filha, serve? Uma apaixonada pela comunicação. Veja querido leitor, pela comunicação.

Sou uma apaixonada declarada! Amo interagir, escutar, escrever, ler, divagar, dividir, comunicar… A paciência é curta, confesso, mas quando o assunto interessa, eu levanto a bandeira. Se me conhece, sabe o que eu digo.

Dito isto, fica aqui o meu terno e profundo respeito a todos aqueles que se dedicam a arte de escrever ficções porque eu me coloco “por demais” nos meus textos e admiro quem consegue se distanciar.

Como diria meu pai, difícil controlar as emoções. Difícil trabalhar nas palavras quando a vida ferve dentro de você.